segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Memorias encantadas


Lembro da manha que começava a brotar suavemente espalhando os primeiros finos traços de luz pela cidade. Não quis levantar, mas inevitavelmente um pequeno ritual interno se fazia, se faz, dentro de mim sempre que o sol se apresentava daquela maneira e o silencio perdido por todos os cantos dava lugar aos rítmicos ruídos de natureza no nosso quintal.
- Bom dia Jericoacoara! Dizia em pensamento, como se repetir isso internamente fora uma forma terna de agradecimento por amanhecer ali.
Sem duvida era incontestável, inevitável e inconfundível o meu afeto por aquela terra e se fazia em mim uma necessidade fundamental de festejá-la.
O fogão velho exalava um cheiro de pão, queijo e orégano que me conduzia ainda mais pela paz contemplativa daquela manha, o cheiro daquele pão recém chegado da pequena padaria parecia nascer junto com o sol, era, sem duvida a voz que toda a manhas me dizia que já era hora de levantar.
Esfregava os olhos com força, e ate a preguiça que nunca me abandona, ali, mediante todos aqueles acontecimentos e a espiritualidade que aquele lugar me remetia era diferente.
A primeira vista no entanto, naquela manha, não foi a larga planície onde pastavam as vacas que ficavam do lado de fora da minha janela, não abri a janela, ao sair do quarto ela ainda com cara de sono preparava o pão na forminha improvisada que antes devia ser uma frigideira, não sei...
A imagem daquela menina de traços fortes, meigos, negros, ficara impregnada em mim de tal forma que me faltava o ar, a manha não poderia ter o complemento humano mais bonito...
Eu sentia uma felicidade tão grande por Zahra existir, por ela estar ali, por ela gostar de orégano, por ela ser negra e combinar tão bem com a luz daquele dia...
Devia haver palavras mais adequadas, mas só falei: Bom dia !
E era sim um bom dia, tal como ate os mais complicados dias foram bons ali. E tão bom era o dia por eu poder estar vivendo aquele momento que tanto me encantou.
Era tão bom estar ali que pensar que um dia eu sentiria saudade de tudo aquilo seria dar um ar de tristeza que essa lembrança definitivamente não merecia ter.
Sentei-me junto a ela pra cortar os tomates, sorri, ela sorriu, e mesmo sem saber o que se passava em minha cabeça, festejou comigo a descoberta do que por nós hoje, se entende como ALEGRIA.

Um comentário:

Anônimo disse...

Lindo texto!! Apaixonante mesmo. Comentário até meio g... rsrsrsrs. Parabéns, gostei muito.